Carreira

Ajuda internacional corta 23,1% em 2025, maior da história

ResumoA ajuda internacional de países ricos a nações pobres registrou queda de 23,1% em 2025, totalizando US$ 52,4 bilhões a menos, o maior corte da história. A redução projeta novo recuo em 2026, afetando diretamente programas de saúde, educação e infraestrutura em países vulneráveis. Os motivos incluem austeridade fiscal e reorientação de prioridades orçamentárias dos doadores.

A ajuda internacional de países ricos a nações pobres caiu 23,1% em 2025, o maior corte da história. Foram US$ 52,4 bilhões a menos, com projeção de novo recuo em 2026. Entenda quem mais sofre e os motivos por trás da redução.

Fernanda Pacheco Fernanda Pacheco · Professora de idiomas e colunista · 03 de agosto de 2026 · 5 min
Ajuda internacional corta 23,1% em 2025, maior da história
Local
Brasil
Regime
A combinar
Salário
A combinar
Publicado
03 de agosto de 2026

Ajuda internacional sofre corte de 23,1% em 2025, o maior da história

A ajuda internacional de países ricos para nações pobres, menos desenvolvidas e instituições multilaterais caiu 23,1% na passagem de 2024 para 2025. É a maior redução já registrada, segundo estudo do Brics Policy Center, centro de estudos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Em 2024, o auxílio somou US$ 226,7 bilhões. Em 2025, caiu para US$ 174,3 bilhões, quase R$ 900 bilhões, um corte de US$ 52,4 bilhões em termos reais, já descontando a inflação do período. Foi o segundo ano seguido de diminuição na ajuda global.

Por que o corte de 23,1% é o maior da história?

A redução de 23,1% supera todos os recuos anteriores registrados desde que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), conhecida como "clube dos países ricos", começou a monitorar os fluxos. Os pesquisadores Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl usaram dados do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), grupo de países doadores ligado à OCDE. O Brasil não faz parte da instituição.

O corte é ainda mais expressivo porque não foi pontual. Os acadêmicos projetam nova redução de 6,9% em 2026, o que configuraria o terceiro ano seguido de recuo e levaria o patamar de ajuda ao mesmo nível de 2014.

Quem mais cortou: EUA lideram a redução

Os cinco maiores doadores, França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, representam 95,7% da redução de 2024 para 2025. Os EUA sozinhos respondem por três quartos, 75,1%, da diminuição, com corte de 56,9% na ajuda americana.

A queda americana coincide com o início do novo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O presidente tem mantido posição contra o multilateralismo. Em relação aos EUA, os gastos com defesa subiram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões.

Na União Europeia, o salto nos gastos com defesa foi de 11%, chegando a 381 bilhões de euros. O investimento total em energia na UE passou de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025, quase dobrando.

"Esse impulso de investimento vem se consolidando ao longo da década e foi fortemente acelerado pelo choque de segurança energética após o início da Guerra da Ucrânia [fevereiro de 2022]", explica o relatório.

Retração seletiva: nem todos os canais caem

Os pesquisadores sinalizam uma "retração seletiva" da ajuda internacional. Não há queda uniforme nos canais multilaterais. O financiamento ao sistema ONU caiu 27%, o maior já registrado. No entanto, o apoio ao Banco Mundial aumentou 6,4%, e aos bancos regionais de desenvolvimento, 11,9%.

"Os governos doadores estão redefinindo quais tipos de engajamento multilateral eles consideram dignos de serem preservados, por motivos estratégicos", afirma o documento.

Ucrânia: prioridade estratégica mesmo com cortes

Mesmo com a queda global, a Ucrânia, país no quinto ano de guerra com a Rússia, se destaca como prioridade estratégica de países europeus. Apesar da redução de 91% da ajuda dos EUA, a Ucrânia é o maior recebedor individual de toda a história da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD). Recebeu US$ 44,9 bilhões, compensados por 23 países que incrementaram o volume de assistência. Só instituições da UE subiram os envios em 65,2%.

O montante recebido pela Ucrânia supera os US$ 28,1 bilhões destinados aos 44 países do grupo classificado pela ONU como Países Menos Desenvolvidos (PMD).

Impacto humano: mortes em excesso e regiões mais afetadas

Os pesquisadores da PUC-Rio usam dados da Oxfam, organização internacional sem fins lucrativos focada em combater a pobreza. A estimativa é de que os cortes na ajuda externa somente em 2025 seriam responsáveis por 695.238 mortes em excesso. Caso a tendência continue, poderiam causar 9.416.417 mortes até 2030.

A região que mais sofre é a África Subsaariana, que viu os recursos diminuírem 23% em 2025, ficando em US$ 29,2 bilhões. Para 2026, a projeção é nova redução de 11,6%. Se confirmado, serão US$ 11,8 bilhões a menos para essas nações. O estudo lembra que 32 dos 49 países da África Subsaariana também são do grupo Países Menos Desenvolvidos.

O que esperar para 2026 e os caminhos propostos

O estudo lembra que, durante a 30ª Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em novembro passado em Belém, falava-se na necessidade de mobilizar US$ 1,3 trilhão para o financiamento climático, ao mesmo tempo em que havia "um consenso de que esse valor é praticamente inalcançável".

Ao fim do diagnóstico, o levantamento apresenta caminhos para minimizar impactos em países mais dependentes de ajuda internacional. Entre as ações estão: direcionar recursos escassos para os países mais pobres, especialmente os que dependem excessivamente de poucos doadores; planejar saídas de financiamento de forma "responsável e coordenada"; e tornar a ajuda mais eficaz e geradora de mais impacto para o desenvolvimento.

Perguntas Frequentes

O que é a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD)?

A AOD são recursos públicos fornecidos por governos com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico e a prosperidade em outros países. A ajuda pode ser bilateral, quando enviada diretamente ao país receptor, ou multilateral, quando os governos enviam para instituições como a ONU ou o Banco Mundial.

Por que o corte de 2025 foi o maior da história?

A redução de 23,1% foi puxada principalmente pelos EUA, que cortaram a ajuda em 56,9%. Além disso, todos os grandes doadores diminuíram o volume por dois anos seguidos pela primeira vez.

Quem mais sofre com o corte?

A África Subsaariana é a região mais afetada, com redução de 23% em 2025. Os países mais pobres e dependentes de poucos doadores tendem a sofrer mais.

A Ucrânia continua recebendo ajuda?

Sim. Apesar da queda de 91% da ajuda dos EUA, a Ucrânia segue como maior recebedor individual da história da AOD, com US$ 44,9 bilhões, compensados por países europeus.

O que pode ser feito para reverter o cenário?

O estudo sugere direcionar recursos aos países mais pobres, planejar saídas de financiamento de forma coordenada e tornar a ajuda mais eficaz e com mais impacto para o desenvolvimento.

impacto dos cortes na África Subsaariana como a guerra na Ucrânia afetou a ajuda internacional o papel da OCDE na ajuda ao desenvolvimento

Publicidade

Leia também